Kornit fala de novos modelos de negócio e projetos para o Brasil

Kornit fala de novos modelos de negócio e projetos para o Brasil

A indústria têxtil passa por uma gigante transformação com a chegada da impressão digital. Ela vem se tornando cada vez mais essencial por conseguir atender com mais eficiência algumas demandas da sociedade atual, como produção mais customizada, com curtíssimo temos de entrega e sustentável.

Um dos grandes players globais do setor é a Kornit, que vem levando sua alta tecnologia para estamparia, empresas de comunicação e novos negócios, especialmente com sua capacidade de produção ágil, limpa e com uma cadeia totalmente automatizada. Para entender melhor sobre este conceito, conversamos com Israel Kenan, Country lead na Kornit Digital, Brasil. Confira os principais tópicos:

A Kornit

A Kornit é uma empresa israelense que nasceu em 2002 e tem como destaque a sua tecnologia wet on wet (Impressão sobre o molhado), o que fez ela se diferenciar de outros concorrentes de impressão sobre tecido.

Estamos na Bolsa de Valores de Nova Iorque, crescendo ano a ano, temos mais de 670 colaboradores e mais de 1,5 mil clientes, entre eles grandes marcas como Amazon.

Temos como objetivos principais oferecer a capacidade de fazer tiragens curtas, quando for necessário, sem inventário, super sustentável, estando próximo ao cliente e com entrega Just in time.

Fale um pouco sobre a tecnologia da Kornit

Estamos fazendo ações disruptivas que nenhuma outra marca faz. Temos uma tecnologia que pega dois componentes que, juntos, geram um terceiro componente. É química. Duas coisas que viram uma terceira - tinta base água pigmentada e fixador se transformam na imagem impressa. Ela fornece pré-tratamento e secagem em linha, a peça sai pronta do outro lado.

Primeiro começamos imprimindo só em camiseta branca, porque não tínhamos a tinta branca. Em 2005, fizemos a tinta branca e entramos no mercado DTG (direct-to-garment, impressão direta na peça). Em 2021, entramos no mercado rolo a rolo para a tecnologia DTF (direct-to-frabric, impressão direta no tecido), direta no tecido.

Em 2018, foi o divisor de água, quando lançamos a tecnologia HD, reduzindo o custo em mais de 70%, melhorando a qualidade e entramos no mercado de varejo, porque a personalização não conseguia fazer produção em série de grandes quantidades e atender grandes marcas. E foi quando quebramos essa barreira.

Em 2021, entramos na tecnologia MAX, extra-dimensional, com impressão em relevo, algo único no mercado. E depois a KornitX, plataforma que liga grandes marcas e usuários. Conforme o cliente compra e pede mais modelos, a produção cairá na instalação de estamparia mais próxima do cliente final. Isso vai gerar grande disrupção na indústria.

Como a Kornit está se atualizando com o mercado?

Isso tem muito a ver com a pandemia, que mexeu com a forma de vestir, agora com a procura de mais conforto. O modelo tradicional que você faz coleção, compra do exterior, estoca e espera fazer push com cliente perdeu a relevância. Há tendências que trabalham contra esse movimento.

Quem consegue adaptar e-commerce e deixar o cliente fazer o self-expression consegue captar o cliente. Acabamos sendo mais consultores de relacionamento com o cliente do que só produtor de peça. Quem enxergar isso vai ganhar muito dinheiro.

Pensando em tecnologias digitais em tecido, 50% está em sublimação, 28% reativo, 9% ácido, uma quantidade de impressão direta em sublimático, sem papel, e só 4% em pigmento. Esta tecnologia vai crescer muito pela mudança da cadeia de fornecimento, para a marca não precisar mais ter estoque milionário para se manter relevante. É produzir o necessário no momento necessário, com vantagens ambientais e de custo.

Como a Kornit pode trabalhar em favor do meio ambiente?

As lojas gastam muito em meio ambiente. Uma camiseta em cada quatro nunca vai vender. A segunda vai remarcar (vender mais barato). E duas serão vendidas.

Na H&M, 4,3 bilhões de dólares foram para o lixo ano passado, um enorme impacto de custo e ambiental. Agora, é momento de fazer diferente. Vamos produzir o que for necessário com zero gasto além do necessário. Vamos fazer uma peça única e melhor ao cliente para ela não ser perdida, e com consciência ambiental.

Estamos olhando em toda a cadeia de fornecimento e vemos o que pode ser mais sustentável. Um exemplo é o catálogo virtual ilimitado para você não precisar produzir. Temos algoritmos e processos para o cliente fazer isso online. E manejar o inventário de forma mais flexível ágil e eficiente. E com capacidades digitais, reagir com rapidez a tendências que ocorrem durante uma campanha.

Como a Kornit pode contribuir para o mercado DTG?

Os números de peças criadas para marcas alcançam o valor de US$ 12,2 bi. Depois temos design customizado com 1,1 bi. E então 2,7 bi em mercado promocional, algo que vem crescendo com grandes players que estão adaptando o processo de produção em tecido. Atendemos grandes marcas como Gucci, Amazon (que inclusive tem uma parte da Kornit), Wayfair, Ikea, Spoonflower, entre outras.

A bola da vez é o fulfillment (processo completo que agrupa todas as operações cruciais para atender às necessidades do consumidor). Não é imprimir por um ou dois reais, é entregar na hora que quiser, mudando a cadeia de produção. Temos no mercado DTG cerca de 21 bilhões de peças com algum tipo de decoração (bordado, impressão, relevo), e apenas 1,5% feito com digital. Este número deve ir para 31 bilhões de peças em 2026 e esse mercado deve saltar para 3%.

Além da camiseta, nos Estados Unidos há alta demanda pelo moletom com zíper - e a tecnologia permite fazer em cima do zíper, depois roupa de bebê e crianças pequenas. A Max consegue fazer impressão sobre sapato, sobre couro, com altíssima resistência.

E como estão atuando no mercado de DTF?

Estamos no mercado de tecido branco que você coloca de um lado e do outro sai decorado. Estamos fortes no mercado de decoração residencial, de interior, e também no fashion com a alta costura.

Fazemos a malha aberta em um mercado de 39 bi de metros quadrados. Tem muita máquina digital, mas o processo pré e pós são convencionais, não é um processo totalmente digital, como preparação do tecido, lavagem, secagem - o que também gera desperdícios, mesmo que menos do que o processo totalmente analógico.

Temos a máquina Presto e em breve lançaremos a Presto MAX. Queremos mostrar peças que demorariam meses em um dia. Participamos de uma Fashion Week em Tel Aviv e vamos fazer outras. Quem participa, os criadores de moda, ficam chocados, que podem desenhar algo no papel, escanear, brincar com as cores, e já chamar a modelo para testar, fazendo todo processo no mesmo dia.

Essa tecnologia permite passar para modelo microfactory, desenhar uma peça, passar por todo o processo digital e calcula exatamente como está o laydown da peça conectado ao corte digital e costura e tem peça pronta e minutos, algo inédito no mundo. É indústria fabril totalmente limpa.

Temos em aplicações cabeceiras de cama, cortinas, almofadas, quadros impressos em tecido, guardanapos, centro de mesa, tapeçaria, etc. Em algumas lojas físicas, eles mostram um sofá e deixam um iPad ao lado, onde você poderá acessar um banco de imagens e escolher a arte que você mais gosta, combinando com a sua casa.

Qual o diferencial da Kornit?

O que fazemos é criar uma fábrica digital, esse é nosso diferencial. Temos produções de escala, com clientes utilizando o digital como fábrica. Temos clientes produzindo 1 milhão de camisetas por dia com a tecnologia Kornit.

Nosso portfólio é bem simples, dividido em DTG e DTF. No DTG, vai pela necessidade do cliente, sejam 10 mil peças ou 300 mil peças. Mas a tecnologia é a mesma, tinta base água pigmentada, wet to wet, workflow diferenciado. E sempre tentamos entender a necessidade do cliente.

A máquina tem dois berços dinâmicos, ela faz todo o pré-tratamento inline, sem precisar preparar antes fora da máquina. Imprime base branca se necessário e faz a impressão, quando pronta, ela está molhada. E precisa evaporar o tecido, mas como é base água não tem solvente ou contaminante que gera problemas ao meio ambiente. Ela entra em uma esteira e sai já seca.

Houve algum lançamento neste ano?

Fizemos algo único: conseguimos imprimir de forma tridimensional. Nossa tecnologia tem dois componentes: o fixador e a tinta. Quando esses dois tocam tem o processo de coagulação, de cura.

Pensamos: vamos pegar uma cabeça de impressão e jogar uma gota de fixador entre cada camada e conseguir criar camadas uma em cima da outra, como um Lego. Essa tecnologia Max, com a XDI, nasceu e conseguimos este relevo até 600 micras. Usamos para marcas que exigem alta resistência, durabilidade, lavagem e outros elementos.

Conseguimos fazer efeito de bordado, entrar no mercado de vinil de recorte e também no mercado de alta densidade de cores.

O que podemos esperar da Kornit futuramente?

Temos exemplos no mundo e no Brasil de empresas que entraram no digital. São empresas que estão reduzindo inventários, deixando apenas estoque branco e imprimindo conforme demanda. Temos parceiros que usam nosso equipamento para que outras empresas terceirizem estes pedidos customizados em suas máquinas.

A Kornit está trabalhando nisso em grande escala com o KornitX. Marcas promocionais e de varejo com produtos licenciados terão um app que poderá realmente preparar a coleção. Será possível fazer design, ver como a camiseta fica, tudo com base de algoritmo. Isso conecta com a loja online e cria o catálogo virtual.

No futuro, você poderá pegar seu smartphone, escanear, e ter o seu tamanho, que será único seu, e sempre que pedir terá o seu tamanho. Tudo muito personalizado. E depois que o pedido estiver pronto, a marca subirá na nuvem e verá qual a empresa da rede de usuários com equipamento Kornit está mais próxima do cliente e levará o pedido lá automaticamente pela nuvem.

O limitante hoje é o fator humano. A máquina corre rápido, mas o humano não dá conta. Então estamos planejando um robô para colaborar na produção na troca de trabalho. E uma novidade que saiu recentemente foi a parceria com a Canva, uma enciclopédia oficial de imagens licenciadas para ser usadas nas peças.

Como a Kornit está posicionada no mercado nacional?

Sobre o mercado brasileiro, estamos criando uma estrutura. Hoje temos cerca de 50 a 60 máquinas. Cheguei há pouco tempo para fazer uma mudança radical do ponto de vista estrutural. A Kornit acredita muito no mercado brasileiro e estamos falando com grandes marcas para fazer esta transformação.

Temos grandes possibilidades para quem quer entrar agora na estrutura da Kornit porque vai chover muita produção para cá. Quem desejar pegar estes trabalhos de grandes marcas conseguirá aproveitar.

Como a Kornit vê os mercados DTG e DTF?

Os mercados DTG e DTF estão em maturação diferente. No mercado DTG é uma ameaça iminente, pois na serigrafia você tem setup, precisa de operador experiente e o custo operacional é alto. Mas o custo unitário é baixo nas grandes produções. E 70% ainda pode fazer sentido na serigrafia.

O problema é que 30% passando para quatro cores o custo aumenta. Então a solução é unir as duas tecnologias. Quando eles pegam o digital, acabam explorando mais as capacidades do digital, como a questão customizada que o tradicional não faz antes. E a cada ano a necessidade de tiragem reduzida sobe porque as marcas têm problemas com inventário. E essas tiragens de mais de 10 mil peças são mais disputadas.

No DTF a história é diferente. Se o empresário já tem uma base industrial fabril molhada, ele está acostumado a fazer isso. Para ele, pensar em como vai mudar os conceitos, por que vai mudar tudo na empresa para adaptar é algo doloroso. É uma mudança cultural.

Por outro lado, os novos empresários, com pouco equipamento e em um espaço pequeno, estão concorrendo com empresas maiores que possuem a linha tradicional. Há uma grande oportunidade, mas poucos vão conseguir fazer essa migração. Porque são empresas muito tradicionais, acostumadas a fazer igual.

Vemos clientes novos chegando e fazendo, inclusive empresas de comunicação visual que estavam imprimindo lona, olharam para o têxtil e pensaram: com essa máquina consigo entrar no mercado sem precisar ter estrutura fabril molhada? Faço operação clean, fácil, sem desperdícios e questões burocráticas ambientais, vou expandir o leque de produtos. Existe uma sinergia muito interessante como esse mercado. Mas precisa de visão: é algo novo, não é fácil.

Quais outras soluções que a Kornit possui que busca agregar para o mercado?

Muitos estão procurando soluções de workflow e e-commerce. A Kornit comprou a Custom Gateaway, que desenvolveu há alguns anos uma solução end-to-end de workflow, do front-end ao chão de fábrica.

A Kornit lançou o workflow em quatro módulos, que pode ser adaptado, um API aberto, que não influencia no ERP normal do cliente. Normalmente o cliente tem seu site e não influenciamos nisso, ajudamos a dar inteligência ao processo.

No módulo front-end, você precisará da ferramenta que vai mudar rápido a camiseta e subir no sistema para o cliente ver como fica. É permitir que o cliente desenhe, com determinadas regradas, e quando ele termina e fecha o pedido sai diretamente na produção sua ou com o parceiro fulfillment.

A Kornit permite apresentar o produto, desenhar o produto ou deixar o cliente manipular com determinadas regras - colocar nome, subir imagem, ou tendo banco de imagem determinado. Acompanhar fechamento do pedido, quando o produto virtual vira produto físico - e gerar ordem de produção. Este é o primeiro módulo.

O segundo módulo é o catálogo. Se eu tenho que traduzir o virtual para o físico, então tenho que saber com o que vou trabalhar - camiseta, almofada e todas as suas especificações. É o Print Catalog - de que catálogo vai permitir fazer, que produto vai permitir customizar e como será feito.

Aqui também são definidas as regras do jogo - se terei uma produção de camisas brancas e no meio uma preta, vamos terminar a branca e depois a preta ou algo mais eficiente. Então todas as regras, até de logística, fornecimento, geográfico, estão neste módulo.

No terceiro módulo, entra a produção. Você tem o catalogo de produtos vazios que tem que ser alinhado ao processo de impressão que se dará depois. Você quer o RIP automático, processo de cor mais automático, processo de custo. E pega toda a informação do chão de fábrica e te avisa quando ficará pronto - eficiência de máquina - número de trabalhos da máquina, etc.

E o último módulo, o Automate, é baseado no chão de fábrica e processo automático. A ordem criada, seja onde for do mundo, vem para o Brasil com um código de barra que será impresso em uma pequena impressora - você vai escanear e ele te fala exatamente a prateleira exata para você pegar a peça.

Assim você leva tudo para a máquina. Na máquina, vai bipar novamente e imagem já sobe pronta - não precisa fazer mais nada. É só fazer a rápida conferência e apertar dois botões. Tem velocidade grande da máquina, sem parar.

Depois, há o controle de qualidade. Se a imagem não estiver boa vai negar o trabalho. Se estiver boa vai liberar com o scanner, tudo automático novamente, vai integrar com embalagem, Correios. E se tem ERP, joga a ordem para emitir nota fiscal e puxar informação do cliente final. Em resumo, uma pessoa hoje pode ser a Amazon amanhã.

Você consegue integrar a página da loja que você já tem, consegue com sua audiência aumentar mais o ganho. Hoje, em questão de minutos você lança uma coleção. E dá para lançar no site e até nas redes sociais da marca. Ainda há também uma possibilidade de você customizar na loja e depois receber em casa.

Israel Kenan, Country lead at Kornit Digital – Brazil